Menor produção de aço bruto em 33 meses preocupa mercado latino-americano

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Pressões internas afetam o desempenho, apesar da estabilidade do consumo

Alacero - São Paulo, Brasil, 04 de novembro de 2019. O crescimento da capacidade mundial se intensificou, tornando o cenário mais desafiador para a indústria do aço. Ulf Zumkley, presidente do Comitê de Aço da OCDE, expressou recentemente sérias preocupações com o crescimento inesperado das capacidades de produção de aço em 2019, que vem agravando o excesso de capacidade e contribuindo para o aumento das tensões comerciais.

Diante dessa questão, a Alacero se juntou a outras 15 associações industriais na América do Norte e do Sul, Europa, África e Ásia para exigir que os governos dos países produtores de aço intensifiquem os esforços para eliminar o excesso de capacidade persistente na produção, incluindo fóruns de negociação como o "Fórum Global sobre Excesso de Capacidade no Aço (GFSEC)", do G20, para buscar a implementação imediata de regras e soluções eficazes que reduzam a capacidade excedente, seu impacto e suas causas.

Em meio às crises políticas e econômicas que vêm impactando os mercados internos e a competitividade externa, o déficit comercial regional aumentou em setembro. A produção de aço bruto totalizou 4,692 milhões de toneladas (Mt), o pior indicador em 33 meses, desde dezembro de 2016, quando o resultado alcançou 4,651 Mt. A cifra oscilou para baixo, ficando 5% atrás das 4,942 Mt observadas em agosto. Além disso, desacelerou: caiu 16% em comparação a setembro de 2018, 7% no acumulado do ano até setembro, e ficou 9% abaixo da média dos 8 primeiros meses. A queda de 5% no saldo regional negativo foi puxada pelo Brasil (48%), México (24%) e Argentina (12%).

Um dos motivos para a redução da produção foi o aumento do custo do minério de ferro, que impactou nas margens das empresas. Diante do baixo preço do aço e do salto no custo da matéria-prima, alguns produtores otimizaram  sua produção. Outro fator foi a paralisação de três importantes alto-fornos no Brasil, o maior produtor de aço da região. As perspectivas de queda para os três maiores produtores regionais não favorecem uma recuperação regional para o ano.

Por outro lado, o consumo de produtos laminados atingiu 5.615 Mt em agosto, um aumento de 2% em relação a julho e o melhor indicador em 5 meses. No entanto, o resultado foi 6% menor que em agosto de 2018, quando foram registrados 5.977 Mt. Embora tenha sido 4% superior à média dos primeiros 7 meses do ano, o total acumulado até agosto caiu 5% em relação ao ano anterior. O saldo regional foi positivo em 135 mil toneladas, um aumento de 2% em relação a julho. O aumento foi impulsionado pela Argentina (40%), Brasil (36%), Chile (36%) e México (20%). Por outro lado, a Costa Rica viu sua demanda cair 50% de julho a agosto, acompanhando outros países que também registraram queda, como Colômbia e Equador (-9 mil t).

A produção de aços laminados também teve queda e encerrou setembro com 4,177 Mt, 8% a menos que setembro de 2018, alcançando o nível mais baixo em 7 meses. O resultado ficou 2% abaixo da média dos 8 primeiros meses e recuou 7% no acumulado do ano até setembro em comparação com 2018, embora tenha diminuído 0,9% em comparação com agosto. A queda de 0,9% no saldo regional negativo de 39 mil toneladas foi liderada pelo México e Argentina, que além de somarem negativamente para o déficit, apresentaram saldos individuais negativos maiores que o regional. O Brasil se recuperou com a melhor produção desde maio, com 1,932 Mt. O resultado brasileiro abateu 82% do impacto de Argentina e México. Ainda assim, o restante do déficit, ainda que mínimo, aponta para uma estagnação econômica que mostra a fragilidade perante as conjunturas para o 4º Trimestre.

Os fatores externos que impactaram os números do mercado do aço latino-americano no início do ano vêm dando lugar a pressões internas. Como parte da estagnação econômica frente às guerras comerciais e aos conflitos internos, o aumento do consumo – resultante da estagnação de produção, queda de exportações e aumento de importações – aponta para um mercado interno carente de infraestrutura e de competitividade. Nesse contexto, o aumento do déficit comercial regional indica que a América Latina vem se tornando um consumidor importante para os mercados externos que se aproveitam dessa fragilidade”, afirma Francisco Leal, Diretor Geral da Alacero.

 

Fatores externos e internos

Além da desaceleração global, agravada pelas crises na Alemanha, Itália e Reino Unido com o Brexit e, consequentemente, na China, também existem pressões externas que atingem a América Latina com as guerras comerciais entre os Estados Unidos e a China e entre os Estados Unidos e a União Europeia (UE). Fatores internos, por outro lado, estão afetando taxas de câmbio, inflação e desemprego, com questões políticas na Argentina, Uruguai, Bolívia e Colômbia, além de reformas em andamento na Colômbia, Brasil, Chile e Equador; e questões econômico-sociais com as crises na Argentina e Venezuela, e as regras impostas pelo FMI, que também geraram uma série de problemas. Outros fatores internos incluem os blocos comerciais entre Argentina e Paraguai, Argentina e Brasil e entre México, Estados Unidos e Canadá (T-MEC).

 

Importações recuam

A participação das importações no consumo permanece relativamente estável, representando 36% do consumo acumulado até agosto de 2019, pelo terceiro mês consecutivo. Nos primeiros 8 meses de 2018 representavam 35%. Em agosto, as importações totalizaram 1.987 Mt, 1% a mais que em julho e o melhor indicador em 3 meses, permanecendo 3% acima da média dos primeiros 7 meses do ano. Por outro lado, o resultado mostrou uma queda de 7% em relação ao mesmo mês de 2018, além de uma queda de 3% no acumulado em relação ao ano passado.

Os maiores declínios ocorreram na Costa Rica (-40 mil t), Brasil (-15 mil t) e El Salvador (-14 mil t). Os principais aumentos de importações foram observados no México (48 mil t), Chile (26 mil t), Panamá (25 mil t) e Argentina (11 mil t). México e Argentina apontam para uma substituição de produção por importações para atender a demanda interna, o que fragiliza suas exportações.

 

Exportações perdem ritmo

Em agosto, as exportações totalizaram 615 mil toneladas, diminuindo 10% em relação a julho e 29% em relação ao mesmo mês do ano passado – o pior indicador em 11 meses. Além de estar 21% abaixo da média dos primeiros 7 meses, o resultado das exportações no acumulado até agosto mostrou que houve queda de 9% em relação ao mesmo período de 2018. As maiores baixas ocorreram no Brasil (-25 mil t), Chile (-24 mil t) e Argentina (-17 mil t), enquanto os principais aumentos foram registrados na Guatemala (4 mil t) e no Peru (3 mil t).

Mesmo com o declínio das importações no Brasil, a queda nas exportações – que baixou 7% no acumulado do ano em relação a 2018 – acompanhada de um aumento na produção e no consumo, ainda que breves, indicam uma estagnação do mercado interno.

 

Aumento do déficit da balança comercial

Em agosto, o saldo da balança comercial foi negativo, totalizando 1.370 Mt, o pior indicador em 5 meses. O déficit foi 7% maior que em julho e 8% maior que no mesmo mês de 2018, com o acumulado do ano até agosto avançando 0,6% em comparação ao ano passado. O Brasil e a Argentina se destacaram pelos saldos positivos de janeiro a agosto, que cresceram 1.399 Mt e 163 Mt toneladas, respectivamente.

Os maiores saldos negativos no mesmo acumulado foram observados no México, Chile, Peru e Equador, que representaram 50%, 16%, 13%, 11% e 7% do déficit, nessa ordem. Apesar das políticas de abertura comercial, as crises políticas na Colômbia, Chile, Peru e Equador foram fatores agravantes nesse cenário, enquanto o México continua sofrendo com a desaceleração econômica. ••

 

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